Segunda-feira, 14 Junho, 2021
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Por onde seguir?

No passado Domingo, tivemos oportunidade de relembrar na Primeira Leitura a história de Jonas, o curioso profeta “contra a sua vontade”. Designado por Deus para ir converter a grande cidade de Nínive, este missionário improvável é o protagonista de uma inaudita fuga à missão que lhe foi superiormente apontada.

A história do profeta Jonas talvez seja ainda uma das mais conhecidas da Bíblia. Em pequeno, lembro-me de ma contarem diversas vezes, além de a ver reproduzida em desenhos animados, mas penso que atualmente já não faça parte do nosso imaginário coletivo, mobilizado por temáticas muito mais mundanas e urgentes.

Na verdade, trata-se de um trecho misterioso, de difícil interpretação e repleto de passagens que nos interpelam fortemente. Mas talvez por isso mesmo continue a ser uma ótima história para leitura em família. Nela, mais velhos e mais novos podem unir-se no espanto, na interrogação e no imaginário exuberante que envolve desde um náufrago tragado por um grande peixe e submergido em tenebrosos abismos até à espantosa e súbita conversão de uma metrópole inteira, desde o seu soberano até aos mais humildes animais. É notável a capacidade que a Bíblia tem de nos surpreender em todas as eras!

Contudo, não foi este o aspeto que me levou a escrever hoje sobre o Livro de Jonas. Uma das temáticas que, a meu ver, não costuma ser nele suficientemente explorada é a do papel de Jonas como uma espécie de “anti-Abraão”. Enquanto este, confrontado por Deus com a eminente aniquilação de Sodoma, se ergue num pranto pela salvação dos justos que lá se possam encontrar — e chega mesmo ao ponto de regatear com o Altíssimo pela importância de uma mão cheia de almas —, o nosso amigo Jonas age precisamente ao contrário… Perplexo com a conversão da incontável multidão de Nínive — homens e animais! —, dá início a uma birra com Deus por não conceber como tamanha mole de iniquidade possa merecer Dele a menor benevolência, atingindo a incrível desfaçatez de, por isso, atirar à cara do Pai o desinteresse pela vida que Ele mesmo lhe deu!

O brevíssimo Livro de Jonas merece sem dúvida longos tratados de exegese. Até Jesus lhe deu destaque de entre as Escrituras. Mas o que interessa agora é sublinhar a inconciliável polaridade que afasta as duas vias colocadas em paralelo.

De um lado, Abraão, que arrisca enfrentar o Senhor para arrancar à morte certa um punhado de justos, sem pouco se importar se todos os pecadores serão salvos também — tanto melhor, ousamos dizer! Do outro, Jonas. Este julga acima de Deus, e deseja morrer por não achar digna a multidão que ele mesmo converteu! Bem hajas para sempre Jesus, por seres maior do que Jonas, por teres, para nós, morrido na Cruz. Por nos teres dado a conhecer o teu Segundo Mandamento!

Agora pensemos. Quantas vezes na nossa missão — sim, porque todos somos Missionários e Profetas ! —, quantas vezes nos deixamos levar pelo orgulho de Jonas, em lugar da caridade de Abraão?

Será que nos esquecemos que também Jesus veio escandalizar os fariseus, esses colossos da Lei?

Que andamos nós, cristãos, a fazer julgando o próximo?

A imitar Jonas?

Não é só Jesus que é maior do que Jonas. A nossa Igreja também tem já mais de dois milénios de história. E há cerca de 500 anos, perante a austeridade e o fundamentalismo que exigiam as denominações protestantes, respondemos nós com o Barroco, numa celebração de intensidade e de vida que ainda nos dias de hoje choca aquela severidade glaciar mais… setentrional.

Será que nos iremos deixar enganar tanto tempo depois?

O nosso Deus é uma incontida explosão de Vida e de Amor. E ao malfeitor crucificado à Sua direita, que no último alento reconheceu a culpa de uma vida entregue ao crime e ao mal  e se lembrou dar Glória ao Senhor, responde Jesus com a Salvação e a Vida Eterna! É um Santo, afinal!

Como é possível, Senhor — e agora falo em nome pessoal —, como é possível que eu, que me digo cristão, possa agir tantas vezes contra a Caridade que me exige Jesus?

Não me deixes enganar, meu Deus. Não é a mim que cabe decidir sobre o destino dos homens, nem minha missão subjugar algum malfeitor!

O que tenho a fazer é regressar com alegria a esse Caminho da Caridade que definitivamente me apontou Jesus. É ao meu egoísmo que eu tenho de subjugar, e não ao pecador que me vê como um igual mal disposto com a vida!

Ajuda-me Senhor a reencontrar essa tão estreita Via em que tenho de me perder de mim mesmo para te encontrar a Ti e aos irmãos em sofrimento na cruz!

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