Segunda-feira, 14 Junho, 2021
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2021, Ano Jubilar de São José (1)

Num contexto global que tem vindo a tornar-se cada vez mais hostil aos cristãos e aos valores que professam, não poderia ser mais oportuna a recente proclamação de um ano jubilar dedicado a São José pelo Papa Francisco, a celebrar entre o passado dia 8 de Dezembro de 2020, justamente a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria, e a mesma festividade deste ano de 2021.

Com efeito, lembrando o 150.º aniversário da declaração de São José como Padroeiro Universal da Igreja pelo Papa Pio IX, pede-nos agora o Papa que voltemos a nossa atenção e as nossas preces para aquela figura que de forma tão zelosa e dedicada acompanhou os primeiros anos de vida do nosso Deus Encarnado e proporcionou a Sua Mãe todas as condições para levar a bom termo a sua missão geradora.

Podemos dizer, portanto, que foi São José o bem-aventurado protector das primeiras Pessoas da nossa comunidade cristã sobre a Terra, tarefa essa que, entre as maiores tribulações, conseguiu conduzir sem vacilações e levar a bom termo.

Tornou-se habitual nestes tempos criticar asperamente a Igreja pelo “severo modelo patriarcal” que supostamente propõe. Ora, é justamente a vida de São José o primeiro e melhor exemplo que podemos dar para contrariar tão injusta acusação. De São José não se conhece uma única palavra, pois a sua missão consistiu apenas em ouvir e fazer. Não se lhe conhece outra acção que não fosse a de proporcionar à Mãe e ao Filho toda a segurança que podiam necessitar. Não se lhe viu uma atitude mais ríspida, pois a sua missão foi simplesmente a de amar. São José bem pode ser um modelo para todos os pais dos nossos dias, pois a sua glória foi unicamente deixar brilhar os que amou.

A Carta Apostólica Patris Corde [Com Coração de Pai] do Papa Francisco é um excelente contributo para que conheçamos melhor a tão silenciosa figura de São José e a razão pela qual a sua intercessão por nós pode ser tão eficaz e poderosa. É também uma leitura inspiradora para todas as famílias, que nele podem encontrar um protector, um modelo e um guia para enfrentar com ânimo e fé as adversidades que hoje nos traz o dia-a-dia.

Durante as próximas semanas iremos reproduzir aqui esta Carta Apostólica do Papa Francisco, com a esperança que nestes tempos sombrios possa constituir uma forte luz brilhando em todos os lares.

 


Carta Apostólica Patris Corde do Papa Francisco

Por ocasião do 150.º aniversário da declaração de São José como Padroeiro Universal da Igreja

Com coração de pai: assim José amou a Jesus, designado nos quatro Evangelhos como «o Filho de José». [1]

Os dois evangelistas que puseram em relevo a sua figura, Mateus e Lucas, narram pouco, mas o suficiente para fazer compreender o género de pai que era e a missão que a Providência lhe confiou.

Sabemos que era um humilde carpinteiro (Mt 13,55), desposado com Maria (Mt 1,18; Lc 1,27); um«homem justo» (Mt 1,19), sempre pronto a cumprir a vontade de Deus manifestada na sua Lei (Lc 2,22.27.39) e através de quatro sonhos (Mt 1,20; 2,13.19.22). Depois duma viagem longa e cansativa de Nazaré a Belém, viu o Messias nascer num estábulo, «por não haver lugar para eles» (Lc 2,7) noutro sítio. Foi testemunha da adoração dos pastores (Lc 2,8-20) e dos Magos (Mt 2,1-12), que representavam, respetivamente, o povo de Israel e os povos pagãos.

Edwin Longsden Long, Anno Domini, 1883

Teve a coragem de assumir a paternidade legal de Jesus, a quem deu o nome revelado pelo anjo: dar-Lhe-ás «o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados» (Mt 1,21). Entre os povos antigos, como se sabe, dar o nome a uma pessoa ou a uma coisa significava conseguir um título de pertença, como fez Adão na narração do Génesis (2,19-20).

No Templo, quarenta dias depois do nascimento, José – juntamente com a mãe – ofereceu o Menino ao Senhor e ouviu, surpreendido, a profecia que Simeão fez a respeito de Jesus e Maria (Lc 2,22-35). Para defender Jesus de Herodes, residiu como forasteiro no Egito (Mt 2,13-18). Regressado à pátria, viveu no recôndito da pequena e ignorada cidade de Nazaré, na Galileia – donde (dizia-se) «não sairá nenhum profeta» (Jo 7,52), nem «poderá vir alguma coisa boa» (Jo 1,46) –, longe de Belém, a sua cidade natal, e de Jerusalém, onde se erguia o Templo. Foi precisamente durante uma peregrinação a Jerusalém que perderam Jesus (tinha ele doze anos) e José e Maria, angustiados, andaram à sua procura, acabando por encontrá-Lo três dias mais tarde no Templo, discutindo com os doutores da Lei (Lc 2,41-50).

Depois de Maria, a Mãe de Deus, nenhum Santo ocupa tanto espaço no magistério pontifício como José, seu esposo. Os meus antecessores aprofundaram a mensagem contida nos poucos dados transmitidos pelos Evangelhos para realçar ainda mais o seu papel central na história da salvação: o Beato Pio IX declarou-o «Padroeiro da Igreja Católica», [2] o Venerável Pio XII apresentou-o como «Padroeiro dos operários» [3]
e São João Paulo II, como «Guardião do Redentor». [4] O povo invoca-o como «padroeiro da boa morte». [5]

Assim, ao completarem-se 150 anos da sua declaração como Padroeiro da Igreja Católica, feita pelo Beato Pio IX a 8 de dezembro de 1870, gostaria de deixar «a boca – como diz Jesus – falar da abundância do coração» (Mt 12,34), para partilhar convosco algumas reflexões pessoais sobre esta figura extraordinária, tão próxima da condição humana de cada um de nós. Tal desejo foi crescendo ao longo destes meses de pandemia em que pudemos experimentar, no meio da crise que nos afeta, que «as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiras e enfermeiros, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho. (…) Quantas pessoas dia a dia exercitam a paciência e infundem esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, mães, avôs e avós, professores mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Quantas pessoas rezam, se imolam e intercedem pelo bem de todos». [6] Todos podem encontrar em São José – o homem que passa despercebido, o homem da presença quotidiana discreta e escondida – um intercessor, um amparo e um guia nos momentos de dificuldade. São José lembra-nos que todos aqueles que estão, aparentemente, escondidos ou em segundo plano têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação. A todos eles, dirijo uma palavra de reconhecimento e gratidão.

[1] Lucas 4,22; João 6,42; cf. Mateus 13,55; Marcos 6,3.
[2] Sacra Congregação dos Ritos, Quemadmodum Deus (8 de dezembro de 1870): ASS 6 (1870-71), 194.
[3] Cf. Discurso às Associações Cristãs dos Trabalhadores Italianos (ACLI) por ocasião da Solenidade de São José Operário (1 de maio de 1955): AAS 47 (1955), 406.
[4] Cf. Exortação apostólica Redemptoris custos (15 de agosto de 1989): AAS 82 (1990), 5-34.
[5] Catecismo da Igreja Católica, 1014.

(continua…)

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