Segunda-feira, 14 Junho, 2021
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2021, Ano Jubilar de São José (2)

Já faz alguns dias, publicámos a introdução da Carta Apostólica Patris Corde (“Com Coração de Pai”) do Papa Francisco, um texto que nos apresenta uma excelente compilação de todas as passagens do Novo Testamento em que é referido o Pai terreno de Jesus.

Acompanhadas de curtos eclarecimentos, permitiram-nos perceber como o extraordinário exemplo de São José, um homem simultaneamente tão simples e tão importante, nos pode guiar ainda nos dias de provação que atualmente enfrentamos.

Desta vez, apresentamos a parte 1. da mesma Carta Apostólica, sob o título “Pai amado”.

Nela, o Papa Francisco sublinha a grandeza da paternidade associada a uma total doação de si, num plano de generosidade integral. De forma inspirada, coloca em paralelo os dois grandes Josés das nossas escrituras: o filho de Jacob e o São José de que vamos falando.

O primeiro, perseguido pela inveja dos irmãos e vendido como escravo no Egipto, acaba por se alçar a uma posição de relevo no país de exílio através da atenta leitura da palavra de Deus manifestada nos sonhos e transforma-se no instrumento de salvação daqueles que o haviam odiado. José do Egipto é um dos maiores modelos de um homem de escuta e de ação. Ouvindo o Pai celeste durante o terrível período de fome que assolou então todo o Próximo Oriente, foi um providenciador não só para todo o povo do Egipto, mas para o povo de Deus então nascente, que contava apenas seu pai Jacob e os onze irmãos.

São José eleva o exemplo do seu antecessor ao plano universal. Perseguido agora pela inveja de todos os poderosos e escutando também a inspiradora Palavra do Pai em sonhos, não repousa senão quando vê em segurança aqueles que lhe foram confiados. Numa condição de humildade muito inferior à de José do Egipto, através da sua ação foi um providenciador de toda a humanidade ao resgatar Jesus de todos os perigos.

É esta linhagem de pais amorosos que não deve deixar de inspirar em nós a disposição de superar todos os erros, todas as falhas, todas as dificuldades e todas as humilhações que se interpõem entre nós e a nossa missão de cuidar — e conquistar, por isso, a bem-aventurança de todo o Amor.

Esta mensagem torna-se muito mais importante e abrangente numa altura em que em muitos lares falta justamente esta figura de um pai providenciador e acabam por recair sobre as mães os principais encargos da vida doméstica. Não estará na altura das nossas comunidades resgatarem tantas mulheres e crianças entregues à voragem do mundo? Não terá chegado finalmente o momento de assumirmos em toda a plenitude o exemplo de amor de São José?

 


Carta Apostólica Patris Corde do Papa Francisco

(continuação)

1. Pai amado

A grandeza de São José consiste no facto de ter sido o esposo de Maria e o pai de Jesus. Como tal, afirma São João Crisóstomo, «colocou-se inteiramente ao serviço do plano salvífico».[7]

São Paulo VI faz notar que a sua paternidade se exprimiu, concretamente, «em ter feito da sua vida um serviço, um sacrifício, ao mistério da encarnação e à conjunta missão redentora; em ter usado da autoridade legal que detinha sobre a Sagrada Família para lhe fazer dom total de si mesmo, da sua vida, do seu trabalho; em ter convertido a sua vocação humana ao amor doméstico na oblação sobre-humana de si mesmo, do seu coração e de todas as capacidades no amor colocado ao serviço do Messias nascido na sua casa».[8]

Gerard Seghers, O Sonho de São José, c. 1630

Por este seu papel na história da salvação, São José é um pai que foi sempre amado pelo povo cristão, como prova o facto de lhe terem sido dedicadas numerosas igrejas por todo o mundo; de muitos institutos religiosos, confrarias e grupos eclesiais se terem inspirado na sua espiritualidade e adotado o seu nome; e de, há séculos, se realizarem em sua honra várias representações sacras. Muitos Santos e Santas foram seus devotos apaixonados, entre os quais se conta Teresa de Ávila que o adoptou como advogado e intercessor, recomendando-se instantemente a São José e recebendo todas as graças que lhe pedia; animada pela própria experiência, a Santa persuadia os outros a serem igualmente devotos dele.[9]

Em todo o manual de orações, há sempre alguma a São José. São-lhe dirigidas invocações especiais todas as quartas-feiras e, de forma particular, durante o mês de março inteiro, tradicionalmente dedicado a ele.[10]

A confiança do povo em São José está contida na expressão «ite ad Joseph», que faz referência ao período de carestia no Egito, quando o povo pedia pão ao Faraó e ele respondia: «Ide ter com José; fazei o que ele vos disser» (Gn 41,55). Tratava-se de José, filho de Jacob, que acabara vendido, vítima da inveja dos seus irmãos (cf. Gn 37,11-28); e posteriormente – segundo a narração bíblica – tornou-se vice-rei do Egito (cf. Gn 41,41-44).

Enquanto descendente de David (cf. Mt 1,16.20), de cuja raiz deveria nascer Jesus segundo a promessa feita ao rei pelo profeta Natan (cf. 2 Sam 7), e como esposo de Maria de Nazaré, São José constitui a dobradiça que une o Antigo e o Novo Testamento.

[7] Homiliæ in Matthæum, V, 3: PG 57, 58.
[8] Homilia (19 de março de 1966): Insegnamenti di Paolo VI, IV (1966), 110.
[9] Cf. Livro da Vida, 6, 6-8.
[10] Todos os dias, há mais de quarenta anos, depois das Laudes, recito uma oração a São José tirada dum livro francês de devoções, do século XIX, da Congregação das Religiosas de Jesus e Maria, que expressa devoção, confiança e um certo desafio a São José: «Glorioso Patriarca São José, cujo poder consegue tornar possíveis as coisas impossíveis, vinde em minha ajuda nestes momentos de angústia e dificuldade. Tomai sob a vossa proteção as situações tão graves e difíceis que Vos confio, para que obtenham uma solução feliz. Meu amado Pai, toda a minha confiança está colocada em Vós. Que não se diga que eu Vos invoquei em vão, e dado que tudo podeis junto de Jesus e Maria, mostrai-me que a vossa bondade é tão grande como o vosso poder. Amen».

(continua…)

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