Domingo, 7 Março, 2021
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Transformar a pandemia numa caminhada de esperança e mudança de vida (2)

Queridos leitores, se tiveram tempo e disposição para ler o meu primeiro artigo desta série, espero que façam o esforço para ler o segundo, dedicado à oração e à fraternidade. Dois temas que vale a pena relembrar, de entre as muitas e belas orientações do Papa Francisco. Estejamos atentos às suas palavras que, saindo da boca de um homem, têm de certeza a inspiração do Espírito Santo.

Para mim, nos tempos terríveis que estamos a atravessar, temos de viver na Terra com os olhos voltados para o Céu, meditando a Palavra de Deus que nos dá força. Relembro o exemplo de São Paulo: “Sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte” (2 Coríntios 12,10).

“A oração preocupa-se pelo homem. Simplesmente pelo homem. Aquele que não ama o irmão não reza seriamente”, afirmou Francisco em Audiência Geral. Na sua Encíclica Fratelli tutti, acrescenta: “Desejo ardentemente que, neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade.”

Penso ser de grande importância recordarmos aquela sexta-feira, 27 de março de 2020, em que numa Praça de S. Pedro completamente vazia o Papa Francisco, com o Santíssimo Sacramento nas mãos, deu a Bênção Urbi et Orbi (locução adverbial latina que significa “À cidade de Roma e ao mundo, a todo o universo”) em Oração pelo Mundo assinalando o valor da fraternidade e sublinhando que ninguém se salva sozinho. “Como os discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. Neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados «vamos perecer», assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar a caminhada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos” – disse Francisco.

A fraternidade real proposta pelo Papa está bem definida na sua Encíclica Fratelli tutti“Todos irmãos”. Também para combater a pandemia de Covid-19. Tal como escreve Francisco logo no número 7 do seu documento, recordando que esta doença “irrompeu de forma inesperada”, tendo deixado “a descoberto as nossas falsas seguranças”. E continua: “Desejo ardentemente que, neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade”.

Mais tarde, na sua Mensagem e Bênção Urbi et Orbi da manhã do Natal passado, sublinhou que: “No Natal, celebramos a luz de Cristo que vem ao mundo e Ele vem para todos: não só para alguns. Hoje, neste tempo de escuridão e incertezas pela pandemia, aparecem várias luzes de esperança, como a descoberta das vacinas” – assinalou o Papa, apelando para que essas vacinas estejam ao dispor de todos e que não sejam geridas de modo nacionalista.

“Para que estas luzes possam iluminar e levar esperança ao mundo inteiro, devem estar à disposição de todos. Não podemos deixar que os nacionalismos fechados nos impeçam de viver como uma verdadeira família humana que somos, disponíveis e solidários com os frágeis”. Francisco apelo à cooperação e à não concorrência: “Peço a todos, aos responsáveis dos Estados, das empresas, dos organismos internacionais, para promoverem a cooperação e não a concorrência”. Lembrou a solidariedade necessária para com os mais frágeis neste tempo de pandemia, nomeadamente, os doentes e os desempregados, não esquecendo as mulheres vítimas de violência doméstica nos meses de confinamento.

“Neste momento histórico, marcado pela crise ecológica e por graves desequilíbrios económicos e sociais, agravados pela pandemia do coronavírus, precisamos mais do que nunca de fraternidade. E Deus oferece-a, dando-nos o seu Filho Jesus: não uma fraternidade feita de palavras bonitas, ideais abstratos, vagos sentimentos… Não! Uma fraternidade baseada no amor real, capaz de encontrar o outro diferente de mim, de compadecer-me dos seus sofrimentos, aproximar-me e cuidar dele mesmo que não seja da minha família, da minha etnia, da minha religião; é diferente de mim, mas é filho de Deus meu irmão, é minha irmã. E isto é válido também nas relações entre os povos e as nações. Todos irmãos” – declarou o Santo Padre.

E relembrando mais uma vez o Papa Francisco – “A oração preocupa-se pelo homem” –, eu atrever-me-ia a concluir afirmando que quem vive a fraternidade vive a melhor oração.

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