Quinta-feira, 21 Outubro, 2021
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As Suas chagas são o Seu amor sem medidas

«Entrar nas suas chagas significa contemplar o amor sem medidas que brota do seu coração»

No Evangelho de hoje, o verbo ver aparece várias vezes: «Os discípulos alegraram-se por ver o Senhor» (Jo 20,20) e depois disseram a Tomé: «Vimos o Senhor» (v. 25). Mas o Evangelho não descreve como o viram, não descreve o Ressuscitado, apenas destaca um detalhe: «Mostrou-lhes as mãos e o lado» (v. 20). Parece significar que os discípulos reconheceram Jesus desse modo: através das suas chagas. O mesmo acontece com Tomé: ele também queria ver «a marca dos pregos nas suas mãos» (v. 25) e, depois de ter visto, acreditou (cf. v. 27).

Apesar da sua incredulidade, temos de agradecer a Tomé, pois não lhe bastou ouvir dizer os outros que Jesus estava vivo, e nem sequer o poder vê-Lo em carne e osso, mas quis ver mais intimamente, tocar com a mão nas suas chagas, os sinais do seu amor. O Evangelho chama a Tomé o «Dídimo» (v. 24), ou seja, gémeo; e nisso ele é verdadeiramente nosso irmão gémeo. Pois também não nos basta saber que Deus existe: um Deus ressuscitado mas longínquo não preenche a nossa vida; não nos atrai um Deus distante, por mais justo e santo que seja. Não: nós também precisamos de “ver a Deus”, de o “tocar com a mão”, precisamos que Ele tenha ressuscitado, e ressuscitado por nós.

Mas como podemos vê-Lo? Como os discípulos: através das suas chagas. Olhando assim, compreenderam que Ele os amava verdadeiramente e lhes perdoava, embora entre eles houvesse quem O tivesse negado e O tivesse abandonado. Entrar nas suas chagas significa contemplar o amor sem medidas que brota do seu coração. É esse o caminho. Significa entender que o seu coração bate por mim, por ti, por cada um de nós. Queridos irmãos e irmãs, podemos considerar-nos e chamar-nos cristãos, e falar sobre muitos belos valores da fé, mas, como os discípulos, precisamos ver Jesus tocando o seu amor. Só assim podemos ir ao coração da fé e, como os discípulos, encontrar uma paz e uma alegria mais fortes que qualquer dúvida (cf. vv. 19-20).

Tomé, depois de ter visto as chagas do Senhor, exclamou: «Meu Senhor e meu Deus!» (v. 28). Queria chamar a atenção para esse pronome que Tomé repete: meu. Trata-se de um pronome possessivo e, se refletimos bem sobre o assunto, poderia parecer impróprio referir-se assim a Deus: de que forma poderá Deus ser meu? Como posso fazer que o Todo-poderoso me pertença? Na realidade, dizendo meu, não profanamos a Deus, mas honramos a sua misericórdia, pois foi Ele que quis “fazer-se nosso”! E, como numa história de amor, dizemos-Lhe: “Fizestes-vos homem por mim, morrestes e ressuscitastes por mim, e agora não sois somente Deus; sois o meu Deus, sois a minha vida. Em vós encontrei o amor que eu procurava e muito mais, como nunca teria imaginado.”

Deus não se ofende de ser “nosso”, pois o amor exige familiaridade e a misericórdia requer confiança. Já no início dos Dez Mandamentos, Deus dizia: «Eu sou o Senhor, teu Deus» (Ex 20,2) e reiterava: «pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus zeloso» (v. 5). Aqui está a proposta de Deus, amante zeloso, que se apresenta como teu Deus; e do coração comovido de Tomé brota a resposta: «Meu Senhor e meu Deus!» Entrando hoje, através das chagas, no mistério de Deus, entendemos que a misericórdia não é apenas uma das suas qualidades, entre muitas outras, mas o palpitar do seu coração. E então, como Tomé, não vivemos mais como discípulos vacilantes; devotos, mas hesitantes; nós também nos tornamos verdadeiros enamorados do Senhor! Não devemos ter medo desta palavra: enamorados do Senhor!

Como saborear este amor, como tocar hoje com a mão a misericórdia de Jesus? O Evangelho também nos sugere isso, quando aponta que na própria tarde da Páscoa (cf. Jo 20,19), ou seja, logo depois de ressuscitar, Jesus, em primeiro lugar, dá o Espírito para perdoar os pecados. Para experimentar o amor, é preciso passar por ali: deixar-se perdoar. Deixar-se perdoar: pergunto a mim mesmo e a cada um de vós: “deixo-me perdoar?”… “Mas, Padre, ir confessar-me parece difícil…” Diante de Deus, somos tentados a fazer como os discípulos no Evangelho: trancarmo-nos por detrás de portas fechadas. Eles faziam isso por temor, e nós também temos medo, vergonha de abrir-nos e contar os nossos pecados. Que o Senhor nos dê a graça de compreender a vergonha: de vê-la não como uma porta fechada, mas como o primeiro passo do encontro. Quando nos sentimos envergonhados, devemos ser agradecidos: quer dizer que não aceitamos o mal, e isso é bom. A vergonha é um convite secreto da alma que precisa do Senhor para vencer o mal. O drama está quando não se sente vergonha por coisa alguma. Não devemos ter medo de sentir vergonha! Assim, passaremos da vergonha ao perdão! Não tenhais medo de vos envergonhar! Não tenhais medo.

Contudo, há uma porta fechada diante do perdão do Senhor: é a da resignação. A resignação é sempre uma porta fechada. Os discípulos experimentaram-na quando, na Páscoa, esperavam que tudo voltasse a ser como antes: permaneciam em Jerusalém, desalentados; o “capítulo Jesus” parecia terminado e, depois de tanto tempo com Ele, nada parecia ter mudado: “Resignemo-nos.” Também nós podemos pensar: “Sou cristão há muito tempo, porém nada muda em mim, cometo sempre os mesmos pecados.” Então, desalentados, renunciamos à misericórdia. Entretanto, o Senhor interpela-nos: “Não acreditas que a misericórdia é maior do que a tua miséria? Queres reincidir no pecado? Sê reincidente em clamar por misericórdia, e veremos quem leva a melhor!” E depois – quem conhece o sacramento do perdão sabe-o bem –, não é verdade que tudo permaneça como antes. Em cada perdão recebemos novo alento, somos encorajados, pois sentimo-nos cada vez mais amados, mais abraçados pelo Pai. E quando, sentindo-nos amados, caímos mais uma vez, sentimos mais dor do que antes. É uma dor benéfica, que lentamente nos vai afastando do pecado. Descobrimos então que a força da vida é receber o perdão de Deus e seguir em frente, de perdão em perdão. Assim segue a vida: de vergonha em vergonha, de perdão em perdão. É esta a vida cristã.

Depois da vergonha e da resignação, existe outra porta fechada, às vezes blindada: o nosso pecado; o próprio pecado. Quando cometo um grande pecado, se eu, com toda a honestidade, não quero perdoar-me, por que o faria Deus? Esta porta, no entanto, está fechada só de um lado: o nosso; para Deus nunca é intransponível. Ele, como nos ensina o Evangelho, adora entrar justamente através “das portas fechadas” – como escutamos –, quando todas as passagens parecem trancadas. É então que Deus faz maravilhas. Ele nunca decide separar-se de nós, somos nós que o deixamos do lado de fora. Mas quando nos confessamos, tem lugar o inaudito: descobrimos que é precisamente aquele pecado que nos mantinha distantes do Senhor a converter-se em lugar de encontro com Ele. Aí, o Deus ferido de amor vem ao encontro das nossas feridas. E torna as nossas miseráveis chagas semelhantes às suas chagas gloriosas. Trata-se de uma transformação: a minha chaga miserável torna-se semelhante às suas chagas gloriosas. Pois Ele é misericórdia e faz maravilhas nas nossas misérias. Como Tomé, pedimos hoje a graça de reconhecer o nosso Deus: de encontrar no seu perdão a nossa alegria; de encontrar na sua misericórdia a nossa esperança.

Papa Francisco, Homilia, Praça São Pedro, 8 de abril de 2018

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