Terça-feira, 27 Julho, 2021
Inicio Boletim Fala o Papa Filhos de Deus, irmãos por Jesus

Filhos de Deus, irmãos por Jesus

«Todos aqueles que acolherem a palavra de Jesus são filhos de Deus e irmãos entre si»

O Evangelho deste domingo (cf. Mc 3,20-35) mostra-nos dois tipos de incompreensão que Jesus teve que enfrentar: a dos escribas e a dos seus próprios familiares.

A primeira incompreensão. Os escribas eram homens instruídos nas Sagradas Escrituras e encarregados de as explicar ao povo. Alguns deles são enviados de Jerusalém à Galileia, onde a fama de Jesus começava a difundir-se, a fim de o desacreditar aos olhos do povo; para desempenhar a função de caluniadores, desacreditando o outro e privando-o da sua autoridade, que coisa feia! E eles foram enviados para fazer isso! Estes escribas chegam com uma acusação clara e terrível — eles não poupam meios, vão ao mais importante e dizem o seguinte: «Ele tem Belzebu, é pelo príncipe dos demónios que expulsa os demónios» (v. 22). Ou seja, é o chefe dos demónios que O impele; o que equivale a dizer, mais ou menos: “ele é um endemoninhado”. Com efeito, Jesus curava muitos doentes, e eles pretendem fazer crer que não o fazia com o Espírito de Deus — como fazia Jesus — mas com o do Maligno, com a força do diabo. Jesus reage com palavras fortes e claras, não tolera isto, pois aqueles escribas, talvez sem se darem conta, estão a cair no pecado mais grave: negar e blasfemar o Amor de Deus que está presente e age em Jesus. E a blasfema, o pecado contra o Espírito Santo, é o único pecado imperdoável — assim diz Jesus — porque parte de um fechamento do coração à misericórdia de Deus que age em Jesus.

Porém, este episódio contém uma admoestação que serve a todos nós. Com efeito, pode acontecer que uma grande inveja pela bondade e pelas boas obras de uma pessoa faça com que seja falsamente acusada. Há nisto um grande veneno mortal: a maldade com que, de maneira intencional, se pretende destruir a boa reputação do outro. Deus nos livre desta terrível tentação! E se, examinando a nossa consciência, nos apercebemos que esta erva daninha está a germinar dentro de nós, devemos imediatamente confessá-lo no sacramento da Penitência, antes que se desenvolva e produza os seus efeitos malvados, que são incuráveis. Estai atentos, pois esta atitude destrói as famílias, as amizades, as comunidades e até a sociedade.

O Evangelho de hoje fala-nos também de outra incompreensão, muito diversa, em relação a Jesus: a dos seus familiares. Eles estavam preocupados porque a nova vida itinerante de Jesus lhes parecia uma loucura (cf. v. 21). Com efeito, Ele mostrava-se muito disponível com o povo, sobretudo com os doentes e os pecadores, a ponto de não ter tempo nem sequer para comer. Jesus era assim: primeiro as pessoas, servir o povo, ajudar o povo, ensinar ao povo, curar as pessoas. Era para as pessoas. Não tinha tempo nem sequer para comer. Por conseguinte, os seus familiares decidem reconduzi-lo a Nazaré, a casa. Chegam ao lugar onde Jesus está a pregar e mandam chamá-lo. Disseram-lhe: «Estão ali fora a Tua mãe e os Teus irmãos, que te procuram» (v. 32). Ele respondeu: «Quem são Minha mãe e Meus irmãos?» E olhando para as pessoas que estavam em seu redor a ouvi-lo, acrescentou: «Aí estão Minha mãe e Meus irmãos. Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe» (v. 33-34). Jesus formou uma nova família, já não baseada nos vínculos de sangue, mas na fé n’Ele, no seu amor que nos acolhe e nos une, no Espírito Santo. Todos aqueles que acolherem a palavra de Jesus são filhos de Deus e irmãos entre si. Acolher a palavra de Jesus torna-nos irmãos entre nós, faz de nós a família de Jesus. Falar mal dos outros, destruir a fama dos outros, torna-nos a família do diabo.

Aquela resposta de Jesus não é uma falta de respeito para com a sua mãe e os seus familiares. Aliás, para Maria é o maior reconhecimento, pois precisamente ela é a discípula perfeita que obedeceu em tudo à vontade de Deus. Que a Virgem Mãe nos ajude a viver sempre em comunhão com Jesus, reconhecendo a obra do Espírito Santo que age n’Ele e na Igreja, regenerando o mundo para a vida nova.

Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 10 de junho de 2018

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

MAIS RECENTES

XVII Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João Distribuiu-os e comeram quanto quiseram (Jo 6,1-15) Naquele tempo, Jesus partiu para o outro lado do mar da Galileia, ou...

Para que nada se perca!

«O Evangelho convida-nos a permanecer disponíveis e laboriosos, como aquele jovem que se dá conta de que tem cinco pães, e diz: “Ofereço isto,...

XVI Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos Eram como ovelhas sem pastor (Mc 6,30-34) Naquele tempo, os Apóstolos voltaram para junto de Jesus e contaram-Lhe tudo o...

Ver, compadecer-se, ensinar

«A compaixão de Jesus não indica simplesmente uma reação emotiva perante uma situação de dificuldade das pessoas, mas é muito mais: é a atitude...

ARQUIVO

ARQUIVO (ÚLTIMOS NÚMEROS)