Papa com Sagradas Escrituras

Comentário do Papa no 1.º Domingo do Advento, ano B

«O Advento é o tempo que nos é concedido para acolher o Senhor que vem ao nosso encontro. Estar atentos e ser vigilantes são as condições para permitir que Deus irrompa na nossa existência.»

Hoje começamos o caminho do Advento, que culminará no Natal. O Advento é o tempo que nos é concedido para acolher o Senhor que vem ao nosso encontro e também para verificar o nosso desejo de Deus, para olhar em frente e nos preparar para o regresso de Cristo. Ele voltará a nós na festa do Natal, quando fizermos memória da sua vinda histórica na humildade da condição humana; mas vem dentro de nós todas as vezes que estamos dispostos a recebê-lo, e virá de novo no fim dos tempos para «julgar os vivos e os mortos». Por isso, devemos estar vigilantes e esperar o Senhor com a expetativa de o encontrar. A liturgia hodierna introduz-nos precisamente neste tema sugestivo da vigilância e da expetativa.

No Evangelho (cf. Mc 13,33-37) Jesus exorta a prestar atenção e a vigiar, a fim de estarmos prontos para o acolher no momento do regresso. Diz-nos: «Ficai de sobreaviso, vigiai; porque não sabeis quando será o tempo […]; vigiai, para que, vindo de repente, não vos encontre dormindo» (vv. 33-36).

A pessoa atenta é a que, no meio dos ruídos do mundo, não se deixa tomar pela distração ou pela superficialidade, mas vive de maneira plena e consciente, com uma preocupação voltada antes de tudo aos outros. Com esta atitude percebemos as lágrimas e as necessidades do próximo e podemos dar-nos conta também das suas capacidades e qualidades humanas e espirituais. A pessoa atenta também se preocupa com o mundo, procurando contrastar a indiferença e a crueldade presentes nele, e alegrando-se pelos tesouros de beleza que, contudo, existem e devem ser preservados. Trata-se de ter um olhar de compreensão para reconhecer quer as misérias e as pobrezas dos indivíduos e da sociedade, quer a riqueza escondida nas pequenas coisas de cada dia, precisamente ali onde nos colocou o Senhor.

A pessoa atenta não se deixa tomar pela distração ou pela superficialidade

A pessoa vigilante é a que aceita o convite para vigiar, ou seja, para não se deixar dominar pelo sono do desencorajamento, da falta de esperança, da desilusão; e ao mesmo tempo, rejeita a solicitação de tantas vaidades de que o mundo está cheio e atrás das quais, por vezes, se sacrificam o tempo e a serenidade pessoal e familiar. É a experiência dolorosa do povo de Israel narrada pelo profeta Isaías: Deus parecia ter deixado desviar para longe dos seus caminhos o seu povo (cf. 63,17), mas este era um efeito da infidelidade do próprio povo (cf. 64,4b). Também nós nos encontramos frequentemente nesta situação de infidelidade à chamada do Senhor: Ele indica-nos o caminho bom, o caminho da fé, o caminho do amor, mas nós procuramos a nossa felicidade noutro lugar.

Estarmos atentos e vigilantes são os pressupostos para não continuarmos a “desviar-nos para longe dos caminhos do Senhor”, perdidos nos nossos pecados e nas nossas infidelidades; estarmos atentos e sermos vigilantes são as condições para permitirmos que Deus irrompa na nossa existência, para lhe restituir significado e valor com a sua presença cheia de bondade e ternura. Maria Santíssima, modelo na expetativa de Deus e ícone da vigilância, nos guie ao encontro do filho Jesus, revigorando o nosso amor por Ele.

Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, 3 de dezembro de 2017

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