Segunda-feira, 19 Abril, 2021
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O nosso Deus é Futuro

Eis que avançamos mais um passo adentro pelo século XXI.

Como nos vamos apercebendo, são grandes os desafios que temos pela frente neste mundo em rápida mudança e em que muitas fracturas que julgávamos sanadas de vez fazem estalar o verniz de uma sociedade que se deseja mostrar como antecâmara das mais assombrosas virtudes humanas.

No nosso país, os grandes órgãos de comunicação permanecem deslumbrados com as novidades de uma “ciência” que apresentam como panaceia infalível e universal para todos os males.

Contudo, este “admirável mundo novo” que contemplamos a milhões de cores em cada um dos ecrãs que se vão multiplicando pelos recantos das nossas casas e pelos bolsos dos nossos casacos, não nos oferece realmente nada de novo além dos gadgets que nos quer impingir a preço de saldo.

No que respeita ao “pano de fundo”, às estruturas socioculturais, de valores e até económicas, qualquer historiador menos distraído pode vislumbrar os deconcertantes paralelismos com eventos de há cem ou duzentos anos atrás.

Contudo, a nossa história cristã é muito mais longa ainda, e nos seus dois mil anos de curso multiplicam-se situações como esta, em que falsamenente se colocou em dicotomia um modelo de sociedade progressista e “científico” (na verdade, técnico) face aos “retrógrados”, “preconceituosos” e “ignorantes” cristãos… Quem não se lembra de São Paulo, lamentando a “sabedoria” que nos pediam os Gregos?

A primeira falácia desta dicotomia prende-se desde logo com a noção de que existe alguma hostilidade entre a religião cristã e a ciência. Trata-se de um tema tão debatido que nem vale a pena alongarmo-nos nele aqui. O tópico que me parece mais digno de reflexão é apenas o que se refere à curiosa “coincidência” de as sociedades científica e tecnologicamente mais avançadas serem maioritariamente de matriz cristã. Na verdade, não será fácil encontrar respostas directas para a questão… mas talvez seja útil lembrar que as universidades de que hoje tanto se fala foram justamente uma invenção… dos cristãos. Adiante.

Sobre o apodo de “preconceituosos”, poderá eventualmente servir como uma luva a alguns “cristãos” menos informados… Mas basta passar uma vista de olhos sobre os Evangelhos para verificar que será justamente essa característica que pode servir como pedra de toque para identificar o esclarecido discípulo de Jesus. E não digo isto com qualquer sobranceria, pois me sei também o primeiro a pecar Como sempre, o inconveniente é confundir o mensageiro com a mensagem que transporta. Todos sabemos. Adiante também.

Fica para o final o anátema de “retrógados”. A esse, sim, parece não poder fugir um modelo de vida com dois mil anos de idade, ou até muito mais.

Nenhum de nós pode razoavelmente aceitar que exista algum pormenor dos ensinamentos de Jesus que não contenha toda a Verdade.

Ora, reside aí o cerne da questão. Assim como reside igualmente aí o cerne da questão do fariseísmo.

E dizemos isso porque prevalece em todos os redutos a tendência exegética de abordar as Escrituras com o sobranceiro crivo dos intérpretes encartados, em lugar da humilde disponibilidade dos aprendizes.

Acreditar que a interpretação dos textos sagrados sob a luz de qualquer paradigma pode trazer alguma coisa de definitivo à inteligência humana é aceitar que a nossa finitude se encontra já acima do Verbo infinito.

Na verdade, foi precisamente essa necessidade de permanente releitura e revisão do Verbo que nos veio anunciar Jesus. Não é a Palavra de Deus que muda! É a abertura do nosso coração que permite ir desvelando o que lá realmente se encontra.

Tem sido esse o labor da Igreja desde o primeiro minuto. Que teve de fazer Pedro depois de baptizar os dois pagãos? Escândalo! Não é isso o que nos lembra a Igreja sempre que nos pede para sabermos ler “os sinais dos tempos”?

Pensar que o Verbo possa ser “carta aberta” para esta humanidade caída é falhar rotundamente o sentido da História. É acreditar que temos diante de nós sete selos quebrados.

É tempo de abrir os olhos. Não é o mundo que muda! O desafio é o mesmo desde que foi plantada uma árvore no centro do Éden!

Aquilo que muda é Deus, caminhando à nossa frente como uma coluna de nuvem. O nosso Deus é Futuro!

E há que correr, todos, atrás, para não perecer sob as águas!

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