Domingo, 5 Dezembro, 2021
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Meter na gaveta o Menino

Encerrámos há dias mais um ciclo do Natal. Como habitualmente, a exemplo de qualquer pessoa responsável, arrumámos os apetrechos festivos, limpámos os nossos salões e metemos na gaveta o Menino. Se Deus quiser, dentro de uns meses surgirá oportunidade de o mostrar outra vez. Entretanto, já é altura de começar a pensar no Carnaval que se segue, e depois na Páscoa, de novo…

É isto a rotina. Nem tem mal nenhum. Afinal, é mesmo assim numa sociedade cristã… Sempre foi…

Só que não.

Encandeados por preceitos de domingos e dias de festa nos nossos pequenos universos, fazemos de conta que nem reparamos como tudo mudou… Mas de forma insensível, já tudo mudou há muito e nós continuamos os mesmos — ou, se calhar, talvez não. Afinal, pode antes ter acontecido que tudo continue na mesma e sejamos nós quem não está mais no lugar.

Um dos fenómenos mais curiosos do recente fin de siècle hiper-industrial, com as suas promessas da árvore das patacas e da cornucópia da abundância para todos, foi a chamada “morte das ideologias”. Estimulada pela exaustão dos sovietes e pela sucedânea invenção chinesa de “um país, dois sistemas”, às quais se juntou a banalização das práticas corruptas nas ditas “democracias ocidentais”, vimos conjugar-se nela o pretexto perfeito para o emergir de uma cultura da tecnociência que exclui da ordem do admissível tudo quanto se não reduza à fria lógica do cálculo.

Assim, não podemos senão ficar mudos quando vemos instalar-se perante os nossos olhos, com a maior naturalidade do mundo, uma sociedade alegremente rendida às incontáveis virtudes da eugenia, do eudemonismo e da eutanásia. É que nós mesmos, quando temos a coragem de retirar do bolso as nossas máquinas de calcular para fazer umas contas, não podemos senão render-nos à evidência matemática da utilidade de uma tão grande justiça…

Na verdade, como poderíamos nós subtrair-nos à conclusão óbvia de que o mais natural é não trazer para um mundo de provações os mais deficientes, os mais doentes e os mais indesejados? Que o mais natural é deixar partir para longe os mais infelizes? E que naturalíssimo é deixar morrer todos aqueles que o querem? Temos de o assumir em verdade! Com efeito, quantos de nós não nos convencemos já que o mais importante é mesmo bem-nascer, bem-viver e bem-morrer? Não será isso mesmo a eu-genia, o eu-demonismo, a eu-tanásia? Não será para isso mesmo que vamos às missas ao Domingo e seguimos fielmente os preceitos?

Por uma estranha “coincidência cósmica” vivemos no local perfeito para ver como pode não ser bem assim… é que na língua que usamos, o prefixo “eu-” que em grego significa “bom, boa” (daí “eu-genia” para “bom nascimento”; “eu-demonismo” para “bom espírito”, ou seja, “boa vida”; e “eu-tanásia” para “boa morte”) se assemelha ao nosso pronome pessoal “EU”, solene matriz de todos os ego-ísmos. Para nós, portanto, já só falta o mais simples, que é perceber como tanta “bondade” esconde tão manhosa perfídia…

Em primeiro lugar, esta “flexibilidade” dos utilitaristas deixa que se despenhe na esfera da subjectividade aquela ordem de princípios éticos e morais que deveria subordinar a acção política — em especial, a legislativa. Assim, o Estado pode dar-se ao luxo de procrastinar qualquer “princípio orientador de ordem superior” em função da “promoção urgente das grandes opções do plano”, deixando a restante gestão orçamental limitada a uma imponderável distribuição de recursos para satisfação das “expectativas pessoais” que mais ruidosamente se façam ouvir nas bancadas. Afastadas de qualquer finalidade objectiva e superior, a educação, a justiça, a saúde, a segurança social, transformam-se em meros serviços a assegurar por um Estado tercializado, à medida das solicitações dos… utentes. E como estas se fragmentam, passa a justificar-se, em rigor, uma lógica dos serviços mínimos. Quem mais quiser, que o pague.

Mas não ficamos por aqui, porque esta subjectivização dos valores exclui definitivamente qualquer igualdade das subjectividades perante a Lei. Não há maneira de o esconder. No fundo, aquilo que nos é dado presenciar não é mais do que a ditadura dos bem-nascidos, dos bem-viventes e dos bem-morrentes. Agora, a subjectividade traduz-se na mais simples ditadura do bom gosto, a tirania dourada e estridente daqueles que têm a voz, a força e os recursos para escolher a vida. Um Estado que se rende à evidência que a morte pode ser a solução final da pobreza, da doença, da invalidez, do infortúnio, do desemprego, da carência, da angustia, da solidão e do medo é um Estado que silenciosamente subscreve o lapidar princípio utilitarista de que “há vidas que não vale a pena viver”. É o Estado que, numa próxima crise, bem pode deixar de encontrar razão suficiente para “desbaratar recursos” com “coisas que não valem a pena”. E não, não se trata de alarmismo nenhum: não falta já quem se queixe do “dinheiro que se desperdiça com ciganos e rendimentos sociais”. Até entre nós.

O que nos traz de regresso à gaveta. E ao Menino.

Pois mais uma vez gostaria de insistir na ideia que tudo foi sempre assim, e somos nós quem não está no devido lugar.

O sucesso da Boa Nova, o êxito dos Apóstolos e a expansão notável das primeiras comunidades cristãs não se fez em virtude de nenhum menino de barro deitado numa caminha de palha. Nem a missão de Jesus foi a de nos legar outros seiscentos preceitos a que dar satisfação.

Depois disso, o que Espírito Santo deu aos nossos avós foi inspiração para eles. Nós estamos no limiar do Terceiro Milénio.

Jesus não se deixou ficar para trás, no Caminho.

E eis que está tão à frente que já nem O vemos!

Não podemos seguir em frente repetindo o passado. Não é com formalismos que mudamos o mundo, nem com retórica que fazemos o Bem. A fé tem de ser operante. Não podemos passar o Domingo numa corrida entre a Igreja e o Supermercado. Temos de reaprender a dar a mão a cada mãe, solteira ou casada, que vê o futuro com medo. Temos mesmo de ser a sopa e o esteio que levantam quem se vê entre trapos caído no chão. Temos de ousar resgatar por alto preço todos aqueles que se deixam vencer pelo doce canto da morte.

Se alguma coisa está a falhar, somos nós que não estamos no sítio

E se fosse mesmo este o momento de deixar na gaveta o Menino de barro?

E se fosse chegada a hora de olharmos no rosto o Menino Jesus de Carne e Osso, esse Menino Jesus de Todos os Dias?

Lembrei-me disto por causa da oração de uma amiga

 

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